13 outubro 2016

Maravilhosas viagens no tempo

Um agradecimento especial à Marta por me ter proporcionado a alegria de uma viagem no tempo
Há dias complexos, com desilusões, desmoronamentos de alma e questionamentos vários.
E depois surgem estes fantásticos bálsamos d´alma, como esta foto.
Assim que olhei, não me apercebi imediatamente da quantidade de memórias inerentes a esta época tão especial e tão peculiar da minha vida, onde tanto mudou de forma brusca, abrupta e violenta demais para o meu gosto.

Precisei de uns minutos para aceder à minha mente e à quantidade de informação reprimida pelo caos que era a minha vida nesta altura e que tinha obliterado por completo o ano transformativo em que passei pela escola preparatória Marquesa de Alorna em Lisboa. 
(E sim, é uma escola pública.)

Estava lá tudo na minha mente, a Marta que fez o obséquio de me tagar na foto segurando a caveira das ciências, prenuncio do final de ciclo que se anunciava na minha vida naquela época, ela que vivia na rua ao lado da minha  e que já me conhecia desde a 1ª classe na Associação operária Palma e Arredores cuja actividade extracurricular era um fantástico clube de xadrez.

O Bruno que passou boa parte do ano com o braço engessado porque caiu do skate, o Zé Pedro, neto do mestre Rocha que nos ia buscar à escola no seu Fiat Uno azul, companheiro de todas as horas, cuja melhor recordação da visita à mesquita de Lisboa, vertida numa composição para uma professora de português do estado novo, foram o cheiro a chulé dos sapatos deixados à entrada e os murmúrios em linguajares estranhos de homens de rabo para o ar, estava assim resumido o Islão para o Zé Pedro.
Responsável por ter feito um tremendo corte em 3 dedos com um X acto, por me atirar com a mochila contra as costas enquanto eu analisava a lâmina do instrumento cortante.

O Pedro Frade, aluno brilhante a quem ofereci o Robinson Crusoe pelo seu aniversário, por saber que iria apreciar um bom livro, mesmo quando eu já não o podia comprar e usei as minhas economias para o fazer.

De parte está uma das 4 terríveis, Vera a quem deixava copiar a estudos sociais, Sandra cujo tamanho das argolas dava para pendurar papagaios, Teresa a rainha do bullying e Tânia que era uma pacífica maria vai com as outras... Parece-me a Sandra, eternas repetentes.

O Paulo e o Ricardo eram os companheiros do berlinde, os intervalos passados a jogar nas traseiras da escola, nos buracos do mini golfe, éramos inocentes de uma dezena de anos e o mundo um lugar demasiado grande, cheio de ilusões, maravilhas e castelos de nuvens, só a mata era interdita, pelo declive acentuado.
Ilusões que o meu olhar revelava estilhaçadas, tinha amigos, tinha alegria, mas também tinha mágoa, dor e incertezas.

Os beijitos às escondidas com a Filipa na Gulbenkian, numa descoberta inocente de pré adolescentes.
Ouvia-se technotronic em leitores de cassetes manhosos da praça de Espanha, lugar onde o arco hoje existente, mais não era que um amontoado de blocos numerados a vermelho que escalávamos como se tratasse do Evereste, no meio do trânsito da cidade.

Tinha memórias muito específicas deste momento em concreto, o momento em que abandonei Lisboa, os meus amigos, a minha realidade e a troquei à força pelas circunstâncias, que me retiraram inocência, a doçura e o aconchego que esta fotografia trouxe à minha memória.
Foi uma viagem no tempo, tão, mas tão boa que só posso agradecer à Marta por resgatar este pedaço de história. 

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