08 maio 2013

Governo vai a exame da 4ª classe proposto pela sociedade civil

Pode uma criança, ser criança no século XXI?

Na década de 60, ir a exame da 4ª classe era um ritual de transição, dado que a escolaridade obrigatória terminava aí...
Seguia-se a vida no campo, a escola comercial e industrial para quem podia ou colégios e liceus para quem podia mais...
Tudo à medida do extraordinário slogan "orgulhosamente sós", que obrigava a saber os rios e os caminhos de ferro do império, para combater pela Pátria ou simplesmente colonizar outros continentes.

Hoje sem TGV, com o plano nacional de barragens, com o mesmo fluxo migratório e outro império, é uma manobra de propaganda, uma mera formalidade, uma burocracia, um termo de responsabilidade aos nove anos, 25% de uma nota que não conta para nada, um cabeçalho do governo de Portugal e mais importante de tudo... Uma caneta preta!

Confesso que não fiz exame da 4ª classe...
Aliás, o meu desporto favorito na primária era baldar-me às aulas, beber bagaço, graffitar paredes e muros, insultar transeuntes e consumir drogas.
Nem sei como cheguei a aprender a ler, escrever e fazer operações matemáticas...
As cópias, os ditados e a numeração romana não eram para mim, que tinha mais curiosidade em verificar os fenómenos de combustão pelo fogo dos diversos materiais...

Ainda assim, fui convidado a fazer provas globais no 10º ano, no 11º e exames nacionais a todas as disciplinas do 12º num horário completo de 10 ou 12 disciplinas...
E mesmo sem saber todos os rios do império, passei.
Embora tivesse percebido mais tarde que podia ter continuado a baldar-me, pegando fogo a coisas, consumindo drogas ou ingressando numa Jota e ter feito tudo isto num ano, sem chatices, nas novas oportunidades...

Licenciei-me pausadamente por ter de sobreviver entretanto (torna-se mais difícil obter uma licenciatura se não estiveres vivo...), só mais tarde percebi que podia ter ido à Lusófona buscar um diploma sem queimar pestanas, bastava ter estado à frente de uma associação de folclore.

Tudo isto, para poder estar aqui hoje, a ser tratado como indigente no próprio país que me formou e me manda emigrar num qualquer fluxo esclavagista do século XXI, como indiferente perante os indicadores e planilhas do excel, como inconsequente para a economia da especulação e como dissidente de um sistema e um governo que privilegiam o controlo, o seguidismo e a capacidade de cumprir o mais bárbaro da bestialidade sem questionar...
Porra, está explicado... Não fiz exames de 4ª classe.

Aos 9 anos não tinha bilhete de identidade (nem número de contribuinte), não assinei um termo de responsabilidade, o telefone era grande demais para levar para a escola (e não tinha 4G)...
Estava ocupado a jogar à bola, andar de bicicleta e a ser criança, algo que não é muito bem visto pela sociedade, ser criança!

Dois exemplos:
A menina milionária aos 6 anos nos EUA, especialista em concursos de beleza
A campanha anti violência infantil em Espanha cujo ponto de honra é ser apenas perceptível aos petizes, mas que depois da publicidade massiva passou a ser perceptível por todos, miúdos e graúdos.

Ontem avaliámos os conhecimentos de Português dos petizes, deveras importante, não tivéssemos um acordo ortográfico que desaprende (d)o português...

Iremos avaliar os conhecimentos de matemática que assistem à criançada na 4ª classe... Sabendo de antemão, que se pode ser ministro das finanças mesmo com as contas todas erradas em permanência...

Podemos avaliar geografia e perceber novamente as fronteiras do império do eurostate, avaliar história para saber que o slogan do PSD já foi "Paz, pão, povo e liberdade" e avaliar meio físico e social pelo número de sem abrigos fruto dos defaults, da lei das rendas e do desemprego...

Podemos avaliar muita coisa...
Tanta coisa, que eu sugeria que começássemos por avaliar o próprio governo, o sistema burocrático que empresta o cabeçalho doutrinador às provas dos petizes.

O regresso às aulas, deixaria de ser nos merceeiros da Sonae ou da Jerónimo Martins...
Passaria a ser numa escola para sociedade civil, que ensine a pensar, a criar, a desburocratizar.
Que promova o debate de soluções, que fomente a inteligência emocional e que vá além da formatação Nestum "das 9 às 5", tão característica da Revolução industrial e que agora com 25% de desemprego em plena era de informação digital de pouco serve.

Num mundo que avança cada vez mais rápido, o sistema vigente oferece como solução o controlo e o regresso ao passado cinzento, onde o lápis era azul e os isqueiros requeriam licença.

Boa sorte miudagem... Do fundo do coração!
Não só para o exame, mas para o país que descobrirem no futuro e a possibilidade de ser (talvez ainda...) o vosso país.

Não se esqueçam do CU (Cartão Único), nem da caneta preta.
Sejam responsáveis, assinem o termo, bebam com moderação... E por favor não conduzam!
Votem em consciência, tenham as licenças em dia, paguem os impostos e as dívidas, as vossas e as dos outros...
Porque segundo o iluminado Poiares Maduro "Só cumprindo compromissos" se pode exigir seja o que for...
Podem começar pela Constituição, de uma República, que já não é democrática, nem tão pouco portuguesa.

(Este texto foi escrito a "marimbar-me completamente" para o acordo ortográfico, entre outras coisas)


1 comentário:

  1. Infant terrible.... ;)Gostei, gostei muito, só embirro com a barra vertical das badanas (no modo classic pelo menos) que complica com o subir e descer do cursor,não imaginas a ginástica que é para lhe acertar, não é de agora...
    como disse gostei muito mas mesmo que não gostasse não tenho opção, ao chegar ao fim da leitura e neste caso vinda do facebook, isto não acrescenta um visto (lido)mas um like...também não é de agora...

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