08 outubro 2011

Clima de Verão no Outono

É muito giro estarem 30ºC em Outubro, poder fazer praia no Outono, quando em anos anteriores já nos apetecia estar à lareira...
Depois de um mês de Agosto estranhíssimo, sem calor suficiente para as ansiadas férias... Vem um Outono com sabor a Verão!
E todos sabemos que Verão em Portugal rima com incêndios florestais...

As consequências deste tipo de fenómenos são muito mais vastas do que se possa imaginar, muito para além da óbvia desflorestação e aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, quer proveniente de incêndios, quer o que não será consumido no futuro por fotossíntese pelas plantas destruídas e não repostas...

Muitos incêndios são de tal ordem violentos, que a redução da biomassa no local é drástica, consumindo tudo a vulgar pó de cinza, muito fino...

Com a eliminação das estações do ano intermédias, Primavera e Outono, podemos prever que as elevadas temperaturas que se fazem sentir neste momento depressa baixarão drasticamente.

As chuvas intensas e pouco frequentes encontram então um solo extremamente erodido, composto de sedimentos finos e sem qualquer auxiliar de absorção, dado que a biomassa foi reduzida a pó e consequentemente as raízes de plantas e árvores não poderão absorver àgua de escorrência superficial ou sub superficial...

Assim a capacidade de campo do solo é drásticamente reduzida, transformando antigas florestas em locais de arrastamento de sedimentos e finos a montante de bacias hidrográficas, transformando-se em enxurradas de lama a jusante, com o aumento da densidade do fluido em escoamento.

O transporte massivo de sedimentos para jusante causa também o assoreamento de leitos de escoamento, diminuindo as secções de passagem de rios e linhas de água naturais, fazendo com que as mesmas transbordem e inundem cidades, vias de comunicação e outras infraestruturas.

Tudo isto é agravado pela sucessiva impermeabilização das superfícies nas cidades, onde o betão, o asfalto e materiais inorgânicos, substituíram toda a superfície absorvente de solo existente, a par com redes de drenagem de águas pluviais com manutenção deficiente e não raras as vezes mal dimensionadas para uma nova realidade de intenso escoamento superficial com elevada dinâmica de transporte de sedimentos.

Outro aspecto que considero muito grave, é o aumento do período de tempo sem chuva Vs períodos rápidos de chuva intensa, quando acontecem as primeiras chuvas, estas removem do ar partículas em suspensão, como poeiras, ou dissolvem químicos reagindo muitas vezes para a formação de ácidos (chuvas ácidas), que ao atingirem o solo degradam o material que encontram orgânico ou inôrganico.

Aliado a este facto, muitos poluentes dispersos no solo por longos períodos de seca, são também arrastados nesses escoamentos, como é o caso de metais pesados, pesticidas e químicos nocivos vários, que serão transportados para a linha de água mais próxima e muitas vezes contaminando as próprias fontes de abastecimento, de onde é retirada a água para consumo humano.
Podendo também ser absorvidos pelo solo diminuindo substancialmente as suas propriedades fisico quimicas e biológicas, tornando o indisponível por contaminação, com elementos que serão transferidos para a biomassa existente!

É portanto muito provável que fenómenos como as enxurradas da Madeira e cheias de grande dimensão tenham expressão num futuro próximo em Portugal, colocando em risco pessoas e bens, pelo que considero que a protecção civil na sua abordagem reactiva às questões, pensasse que o combate aos incêndios tardio deste ano poderá trazer cheias de grande dimensão actuando preventivamente localizando áreas de risco elevado e estabelecendo planos de emergência para essas populações.

4 comentários:

  1. manifesto o meu arrependimento de euforia de verão prolongado...o texto dá que pensar. Mas já houve outros anos estranhos: lembro-me de ter 17 anos e estar na praia em Fevereiro.

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  2. A banhos em Fevereiro? Isso é que são ânsias de Verão...eheheheh

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  3. Parabéns pelo excelente post.

    De facto descreve efectivamente os efeitos que poderão ter estas pequenas alterações climáticas.

    Relativamente aos planos de contigência da Protecção civil para cheias ou inundações, pelo que sei, já existem em muitos locais do país, no entanto, como é sabido a Protecção Civil ao nível local, é uma competência das Camaras Municipais, que, são muito dispares em termos de prioridades, assim, se há as que apostam muito na Protecção Civil e no planeamento, há outras que pouco investem, ficando por isso muito aquém na prevenção das vulnerabilidades existentes.

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  4. Vanessa:

    Os resultados estão à vista...
    Muitas vezes preferia não estar certo...

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